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O luto que ninguém avisa que existe: quando o bom líder vai embora

por Lisa Polloni
25 de agosto, 2026

Tem um tipo de perda que não aparece em nenhum manual de RH, não gera licença e não recebe cartão de condolências. É a perda de um líder querido, alguém que, sem alarde, tornava o trabalho suportável, às vezes até bom, substituído por outra pessoa que transforma a mesma sala, a mesma equipe e as mesmas tarefas num lugar do qual todo mundo quer fugir.

Quem já passou por isso sabe que não é exagero chamar de luto. E, como todo luto, ele costuma ser minimizado por quem está de fora. “É só trabalho, faz parte.” “Você vai se acostumar.” “Todo mundo passa por isso.” Frases ditas com boa intenção que empurram para debaixo do tapete um sofrimento cotidiano, que corrói aos poucos.

A ausência que se sente todos os dias

O bom líder raramente é lembrado pelas grandes ações. É lembrado pelos pequenos gestos: o “como você está?” que era pergunta de verdade; a reunião que terminava dez minutos mais cedo porque o time estava exausto; o aniversário que não passava em branco; o feedback duro sem fazer ninguém se sentir pequeno; a confiança de que, se algo desse errado, ele assumiria junto, e não sairia à procura de um culpado.

Quando essa pessoa sai, promovida, demitida ou simplesmente seguindo outro caminho, a ausência não chega de uma vez. Ela se revela em choques sucessivos: a primeira reunião em que ninguém pergunta como você está; o primeiro erro tratado como falha de caráter; a primeira vez em que você segura a língua numa ideia que antes teria dito sem medo.

Sentir falta de um bom chefe não é fraqueza nem apego excessivo ao emprego. É reconhecer que aquela pessoa cumpria uma função humana rara: tornar o ambiente, além de produtivo, habitável.

Quando o novo líder chega como uma tempestade

Há líderes ruins de muitos jeitos: ausentes, micro gerenciadores, avessos a qualquer conflito ou viciados nele. Existe um tipo particular que a equipe descreve, sem exagero, como “um inferno”: o que instala tensão constante, trata reunião como interrogatório, celebra em público e cobra em particular com dureza desproporcional, e faz da insegurança alheia uma ferramenta de controle.

O que isso provoca não é desconforto passageiro. É desgaste físico e emocional. Gente que dorme mal antes da segunda-feira, revisa um e-mail cinco vezes com medo da resposta, evita contato visual, fala menos e começa a se perguntar se o problema não é ela. “Com o líder anterior eu conseguia trabalhar bem.”

Na maioria dos casos, o que muda não é a competência da equipe. Muda o ambiente em que essa competência precisa operar. Ambientes hostis não revelam o pior das pessoas por acaso. Eles o produzem, dia após dia.

A comparação injusta e inevitável

Ninguém consegue deixar de comparar. E essa comparação, ainda que humana, pesa para os dois lados.

Para quem ficou, cada gesto autoritário reabre a lembrança de como era antes e aprofunda a perda. Para o novo líder, muitas vezes, significa herdar uma expectativa impossível: chegar a uma equipe que já ama outra pessoa e ser julgado o tempo todo por não ser aquela pessoa.

Isso não é defesa de abuso. Não existe justificativa para humilhação, ameaça velada ou gestão pelo medo. Mas vale a pergunta desconfortável: quanto desse “inferno” é escolha, e quanto é insegurança, pressão de cima ou um estilo nunca questionado porque nunca encontrou uma equipe que tivesse experimentado algo melhor?

Isso não reduz a urgência de cuidar de quem sofre agora. Pode, no entanto, impedir que transformemos uma pessoa só na vilã de uma história que quase sempre é mais estrutural do que pessoal.

O que fazer com essa dor

Não existe fórmula que faça a transição doer menos da noite para o dia. Existem formas de atravessá-la sem se perder nela.

Primeiro: permitir-se sentir o que está sendo sentido, sem se cobrar por “ser só trabalho”. É trabalho, sim, e também o lugar onde se passam boa parte das horas acordadas, onde a autoestima profissional se forma e se desfaz. Negar a dor não a diminui. Empurra-a para dentro, onde vira ansiedade, insônia ou um cansaço que nenhum fim de semana resolve.

Segundo: nomear isso com colegas que vivem a mesma coisa. Um “isso está difícil para mim também” quebra o isolamento e a sensação de estar exagerando.

Terceiro: manter um registro honesto, datas, falas, padrões, não para alimentar ressentimento, mas para distinguir um estilo diferente e desconfortável de um padrão abusivo. Nem toda mudança dolorosa é maus-tratos. Quando é, merece ser levada a RH, a um superior ou a uma decisão sobre permanecer. Relativizar como “jeito de ser” só prolonga o dano.

Quarto: lembrar que nenhum líder, bom ou ruim, é dono do valor de quem trabalha com ele. A competência e o cuidado que você levava para aquele time não desaparecem sob a liderança nova, mesmo que, por um tempo, pareçam invisíveis.

Uma última palavra, para os dois lados

Se você ficou sentindo falta de quem fazia o trabalho ser mais leve: essa saudade é legítima. Não é fraqueza, teimosia nem drama. É o reconhecimento de que boa liderança é rara, e de que sua falta também faz diferença real.

Se você é quem chegou depois, sentindo o peso de nunca ocupar por completo o lugar de quem saiu: talvez valha perguntar, com humildade, o que fazia aquela liderança ser tão lembrada. Não para copiar um estilo que não é seu. Para entender que respeito, escuta e compaixão não são privilégio de alguns líderes de sorte. São escolhas. Repetidas, dia após dia, mesmo quando ninguém está aplaudindo.

No fim, a pergunta que fica não é só “por que perdemos um bom líder”. É outra, mais ampla, e vale para qualquer equipe: que tipo de liderança estamos dispostos a exigir, a reconhecer e, principalmente, a construir, antes que ela se torne, de novo, algo que só se nota depois que já foi embora?

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© Lisa Polloni, 2025