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Compaixão não é mimo. É o remédio que falta na conta do absenteísmo

por Lisa Polloni
25 de junho, 2026

Segundo dados oficiais do Ministério da Previdência Social divulgados em janeiro de 2026, o Brasil concedeu em 2025 546.254 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais. Recorde da série histórica, o segundo em dez anos.

São mais de meio milhão de pessoas que adoeceram a ponto de não conseguir trabalhar. Quase dois terços eram mulheres. E a conta chegou: mais de R$ 3,5 bilhões só em benefícios do INSS.

Repare numa coisa antes de seguir. Esses números são de quem ficou doente o suficiente para um médico atestar e o INSS conceder. É a ponta do iceberg. Embaixo dela está o presenteísmo, colaborador que aparece, senta na cadeira e não rende, que ninguém contabiliza com a mesma precisão.

A reação padrão das empresas a esse cenário tem nome: programa de bem-estar. Yoga na sexta, app de meditação, fruta na copa, palestra motivacional uma vez por ano.

São iniciativas válidas, mas insuficientes quando não vêm acompanhadas de mudanças na organização do trabalho. E é aí que mora o nó: o problema não está (só) na cabeça do indivíduo. Está em como o trabalho é estruturado, cobrado e liderado.

O que a própria lei já diz

Desde 26 de maio de 2026, a NR-1 exige que toda empresa com empregado CLT identifique e gerencie os riscos psicossociais no mesmo patamar dos riscos físicos, químicos e biológicos. Acabou o período educativo. Agora a Inspeção do Trabalho autua.

E olha quais são os fatores de risco que a norma lista, em bom português:

  • sobrecarga e metas inalcançáveis
  • jornadas longas sem pausa
  • assédio moral e conflitos
  • falta de apoio da liderança

Leia o último item de novo. A própria norma reconhece que liderança ausente é fator de adoecimento. É risco ocupacional do mesmo tipo que ruído alto ou produto químico.

E é aqui que a compaixão deixa de ser palavra fofa e vira competência técnica.

Compaixão não é ser bonzinho

Compaixão, no trabalho, não é passar a mão na cabeça nem baixar a régua. É perceber o sofrimento do outro e fazer algo concreto para reduzi-lo. Concreto. Operacional.

Um gestor com essa competência faz coisas que aparecem na planilha de absenteísmo:

  • percebe a sobrecarga antes do atestado, não depois
  • renegocia uma meta impossível em vez de repetir “é o que tem”
  • abre espaço para a pessoa dizer que não está bem sem virar alvo
  • distingue queda de desempenho por desânimo de queda por esgotamento

Exemplo prático: um gestor percebe que três pessoas do time estão com entregas atrasadas há duas semanas. Em vez de cobrar na reunião geral, ele senta com cada uma individualmente antes. Descobre que uma está com sobrecarga silenciosa, pegou o trabalho de um colega que saiu, outra atravessa um problema familiar grave. Ele renegocia prazos e redistribui tarefas. Resultado naquele mês: zero atestado novo.

Isso ataca exatamente os fatores que a NR-1 manda gerenciar. Não é coincidência. Compaixão é o mecanismo; gestão de risco psicossocial é o resultado documentado.

O detalhe que quase todo mundo erra

Aqui vem a parte incômoda. A maioria dos programas pega o gestor, entrega um treinamento de “liderança humanizada” e manda ele ser mais acolhedor com o time.

Só que esse gestor é a pessoa mais esgotada da cadeia. Espremido entre a meta que vem de cima e o time que desaba embaixo.

Pedir que ele distribua compaixão quando ele mesmo está na reserva é como mandar quem está em apneia ensinar mergulho. Não dá para dar o que não se tem.

Se a compaixão é remédio, a primeira dose precisa ir para o meio da hierarquia — para quem é cobrado para cuidar e raramente é cuidado.

Empresa que cuida do gestor antes de exigir que ele cuide do time é empresa que está, de fato, mexendo no fator de risco. O resto é teatro de bem-estar.

A conta que importa

Volta para o número do começo. 546 mil afastamentos. R$ 3,5 bilhões. E uma frase que eu repito porque ela resume tudo:

As pessoas não pedem afastamento do trabalho. Elas pedem afastamento do sofrimento que o trabalho produziu.

O atestado é o sintoma. O remédio existe, é barato comparado a R$ 3,5 bilhões, e não vem em cápsula. Vem na forma de gestores que conseguem enxergar gente antes de enxergar número — porque alguém, antes, enxergou eles.

Na sua empresa, o programa de saúde mental cuida de quem cuida?

Fonte dos dados: Ministério da Previdência Social / INSS, concessões de benefícios por incapacidade temporária (CID-10, Capítulo V), 2025.

Escrevi O Poder da Compaixão no Ambiente de Trabalho exatamente sobre quem decide, de forma consciente, ser a liderança que as pessoas nunca esquecem. Com dados, com ciência e com tudo que aprendi em mais de 25 anos dentro de grandes organizações.
O livro está disponível na Amazon Brasil  https://a.co/d/0evBY2FX

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© Lisa Polloni, 2025